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terça-feira, 18 de maio de 2010

Primeiro Amor



É facil saber se um amor é primeiro ou não. Se admite que possa ser o primeiro, é porque não é, o primeiro amor só pode parecer o último amor. É o único amor,o máximo amor, o irrepetível e incrível e antes de morrer que ter outro amor. Não há outro amor. O primeiro amor ocupa o amor todo.
Nunca se percebe bem porque razão começa. Mas começa. E acaba sempre mal porque acaba. Todos os dias parece estar mesmo a começar porque as coisas estão bem, e o coração anda alto. E todos os dias parecem acabar porque as coisas vão mal e o coração anda em baixo.
O primeiro amor dá demasiadas alegrias, mais do que a alma foi concebida para suportar. É por isso que a alegria dói - porque parece que vai acabar de repente. E o primeiro amor dói sempre demais, sempre muito mais do que aguenta e encaixa o peito humano, porque a todo momento se sente que acabou de acabar de repente. O primeiro amor não deixa de parte um bocadinho de nós. Nenhuma inteligência ou atenção se consegue guardar para observá-lo. Fica tudo ocupado. O primeiro amor ocupa tudo. É inobservável. É dificil se quer refletir sobre ele. O primeiro amor leva tudo e não deixa nada.
Diz-se que não há amor como o primeiro e é verdade. Há amores maiores, amores melhores, amores mais bem pensados e apaixonadamente vividos. Há amores mais duradouros, quase todos. Mas não há amor como o primeiro. É o único que estraga o coração e que o deixa estragado.
É como uma criança que põe os dedos dentro de uma tomada elétrica. É esse o choque, a surpresa: '' Meu Deus, como pode ser'' do primeiro amor. Os outros amores poderão ser mais úteis, até mais bonitos, mas são como ligar eletrodomésticos à corrente. Esse amor mói-nos o júizo como a Moulinex mói café. Aquele amor deixa nos cozido por dentro e com suores frios por fora, tal e qual num micro-ondas. Mas o ''ZING'' inicial, o tremor perigoso que se enfia embaixo das unhas e dá quatro mil voltas ao corpo, aquele micro-segundo de eletricidade que nos calhou, só acontece no primeiro amor.
O primeiro amor é aquele que não se limita a esgotar a disposição sentimental para os amores seguintes: quer esgotá-la. Depois dele, ou depois dela, os olhos, os braços e os lábios deixam de ter qualquer utilidade ou interesse. As outras pessoas - por muito bonitas e fascinantes que sejam - metem-nos nojo. Só no primeiro amor.
Não há amor como o primeiro. Mais tarde, quando se deixa de crescer, há o equivalente adulto ao primeiro amor - é o primeiro casamento; mas não é igual. O primeiro amor é uma chapada, um sacudir das raízes adormecidas dos cabelos, uma voragem que nos come as estranhas e não nos explica. Eletrifica-nos a capacidade de poder amar. Ardem- nos a órbita dos olhos, do impensável calor de poder-mos ser amados. Atiramo-nos ao primeiro amor sem pensar onde vamos cair ou de onde saltamos. Saltamos e caímos. Enchemos o peito de ar, segurando as narinas com os dedos a fazer mola de roupa,juramos fazer três ou quatro mortais de costas, e estalamo-nos na água ou no chão, como patos disparados de um ônibus, com penas a esvoaçar por toda parte.
Há amores melhores, mas são amores cansados, amores que já levaram na cabeça, amores que sabem falar alto e faz parar o baile, amores que já dão desconto, amores que tem medo de se magoarem, amores democráticos, que se discutem e se debatem. E todos os amores dão mais prazer do que o primeiro. O primeiro amor está além das categorias normais da dor e do prazer. Não faz sentido se quer. Não tem nada haver com a vida. Pertence a um mundo que só tem duas cores: o preto(feito de todos os tons pretos do planeta) e o branco: feito de todas as cores do arco-íris,todas a correr uma para as outras.
Podem ficar com a ternura dos 40,com a loucura dos 30 e com a frescura dos 20 - não outro amor como o doentio, fechado-no-quarto, o amor do ar, com uma nesga de porta que dá para o Paraíso, o amor delirante de ter sempre a boca cheia de coração e não conseguir dizer coisa com coisa, nem sequer confessar. Não há paz de alma, nem soalheira pachorra de cafunés com champagne, que valha a guerra do primeiro amor, a única em que toda a gente morre e ninguém fica para contar como foi.
Não há regras para gerir o primeiro amor. Se fosse possível ser gerido, ser previsto, ser agendado, ser cuidado, não seria primeiro. A única regra é: Não pensar, não resistir, não duvidar. Como acontece em todas as tragédias, o primeiro amor sofre-se principalmente por não continuar. Anos mais tarde, ainda se sonha retomá-lo, reconquistá-lo, acrescentar um último capitúlo mais feliz ou mais arrumado. Mas não pode ser. O primeiro amor é o único milagre da nossa vida - e não há milagre em segunda mão. É tão separado do resto como se fosse uma primeira vida. Depois do primeiro amor, morre-se. Quando se renasce há uma ressaca. É um misto de ''LIVRA!Ainda bem que já acabou! E de ''Mas o que é isto?Para onde é que foi?''
Os outros amores são maiores, são mais verdadeiros, respeitam mais as personalidades, são mais construtivos - são tudo aquilo que se quiser. Mas formam um conjunto entre eles. O segundo, o terceiro e o quarto, por muito diferentes, são mais parecidos. São amores que se conhecem uns aos outros, bebem copos juntos, telefonam-se. O primeiro amor não forma conjunto nenhum.
Mas é por ser insustentável e irrepetivel que o primeiro amor não se esquece. Parece impossível porque foi. Não deu nada do que se quis. O primeiro amor deveria ser o primeiro e esquecer-se, mas toda a gente sabe, durante o primeiro amor ou depois que é sempre o último.
Afinal, nem é por ser primeiro, nem é por ser amor. A força do primeiro amor vem de queimar - do incêndio incontrolável - todas aquelas ilusões e esperanças, saudades pequenas e sentimentos, que nascem em nós com uma força exagerada e excessiva. Como se queima um campo para crescer plantas nele. Se fossemos para todos os outros amores com o coração semelhantemente alucinado e confuso, nunca mais seriamos felizes, limando arestas, queimando energias, esgotando inusitadas pulsões, tornando-nos mais inteligentes.
É por isso que o primeiro amor fica com a metade mais selvagem e inocente de nós. Seguimos caminho, para outros amores, mais suaves e civilizados, menos exigentes e mais compreensivos. Será por isso que o primeiro amor nunca é único? Que lindo seria se fosse mesmo. Só para que não houvesse outro.

by: Débora Lannes Drumond (;

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